Lembranças
*Carlos Gustavo Garcia
Do que será que se trata, na verdade, quando se conversa sobre lembranças?Segundo os tais neurocientistas e afins, o presente nem mesmo existe, porque o que o corpo consegue entender como presente já é passado - microsegundos de tempo passado, mas já é passado. Tem gente que ainda diz que nem as lembranças mesmo existem, é só reprodução má e porcamente fiel ao caso acontecido que o nosso cérebro registra, porque grava só o que estamos focados no momento, muitas vezes, e não as coisas ao redor.Isso, na verdade, me veio à cabeça quando lembrei do aniversário de um amigo de infância que hoje chega aos dezoito anos. Encontrei o rapaz na sua casa e acompanhado da mãe, assim como eu, que fui até lá com a minha. Em certo tempo, ele teve que sair e ficamos as três figuras restantes na sala, com as duas progenitoras lembrando como, quando pequenos, eu e ele brigávamos, competíamos, mas nunca deixamos a amizade de lado.Não sei bem qual é a primeira lembrança minha e só minha que tenho da infância, porque as histórias que me contam já se incorporaram na minha mente e as reminiscências ficam como mesclas de fatos contados e fatos vividos de verdade. Por exemplo, em relação a esse camarada das antigas, diz minha mãe que ele sempre queria ser o mais velho dos dois, mas era nove meses mais novo e se achava inferior por causa disso. Diz ela que até hoje é um pouco assim, mas eu mesmo nunca liguei muito. Sobre isso, lembro de uma discussão feia que tivemos por causa da pronúncia certa de "orelha", enquanto eu teimava que era de um jeito e ele insistia que era de outro; logicamente, nenhum dos dois estava certo, no final das contas.O mais impressionante é como os cheiros ficam retidos no meio do emaranhado neuronal. Na primeira infância, andar 200m de carro pra mim era uma tortura, pois me sentia enjoado todo o trajeto. Para acalmar esse efeito, minha mãe me fazia engolir umas gotinhas de Dramin, que deve ter sido o gosto mais horrível da infância de muita gente também. O cheiro do remédio, até hoje, me causa nojo. O gosto também, claro, mas como o cheiro vem antes do gosto, no sentir, foi ele quem mais marcou.Falo aqui das primeiras lembranças porque elas são as mais complicadas de serem distinguidas entre vividas ou contadas pra nós. Claro que as acontecidas em idades mais avançadas são mais fáceis de separar, mas mesmo assim algumas teimam em dar a mão a outras para misturar as visões do vivente e do observador. Se alguém tiver uma lembrança de antes dos três anos de idade-se não me engano, essa é a idade em que os bebês começam a guardar suas memórias-, pode se considerar co sorte. Primeiro porre, primeira desilusão maior, várias cenas se engavetam na cabeça pra todo mundo montar o mosaico mental da nossa vida.
2 comentários:
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Lembranças são assim, um doce toque de sentimento do vivido e sempre lembrado, e a certeza de que em algum lugar, mesmo que por um tempo adormecido, nunca apagado. Aquele olhar, aquele cheiro, tudo sempre vivo. O fato é que embora muito discutido, mensurado... Esse sentimento de nostalgia tem um significado especial para cada um. Assim como a saudade, para cada qual o seu significado.
Quando li a pergunta inicial do texto de Carlos Gustavo fiquei intrigada. Embora eu passe tanto tempo lembrando acho que nunca parei para pensar em quê, ou para quê eu lembro tanto.
"Lembramos para não nos perder" arrisco. Lembramos de bons momentos quando estamos mal. Recordamos boas amizades,amores antigos, brincadeiras de infância e fatos hilários para podermos rir novamente e para dividi-los com aqueles que têm a sensibilidade de se alegrarem mesmo com a lembrança alheia.
E esse segundo riso, não é o mesmo que foi brotado no momento do passado fato. Ele é melhor, é o
"resorriso". Aquele sorriso que percebe o não-percebido no momento da euforia. Sentir novamente a alegria daquele momento longe,mas que se repete como filme em nosso cérebro e traz seu efeito para os lábios que se movem e fazem aquele momento mais presente que o próprio presente.
Acho que lembramos para saber que não passamos pelo mundo mas que o mundo passa por nós despertando sorrisos.
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